50 anos del Pibe de Oro

A Humanidade é corporativista. Gostamos daqueles personagens que se perdem nos mais mundanos dos sentimentos e paixões, nos vícios, nos desvios de conduta. Ao mesmo tempo, saboreamos atordoados a grandeza dos feitos impossíveis, mágicos e miraculosos.

Dale, gracias!

Diego Armando Maradona é um pouco desses dois mundos. É um tipo dos mais marcantes, daqueles que se ama ou se odeia. Profundamente. No entanto, podemos odiar e amar Maradona em um mesmo momento.

Mesmo acreditando cientificamente que Pelé foi muito melhor que Maradona, não há como se curvar para o pibe de oro. Sua genialidade aliada a sua extravagância, sua postura provocativa e sua história de vida são instigantes. E apaixonantes.

Por mais perdido que foram seus caminhos, em Nápoles ou em Cuba, não há de se negar uma atração fatal pelo camisa 10 alviceleste. Atração fatal engloba um rompante de repúdio imediato, quando esse argentino dá aquele elástico fulminante ou encaixa uma cobrança de falta bem onde a coruja dorme.

Sim, meio século de vida. De uma vida apaixonante, dramática, irresponsável e genial. Parabéns pibe, por ser um resumo vivaz da natureza humana.

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Mas que jogaços nesse domingo!

Esse domingo nos proporcionou dois belíssimos jogos nas oitavas de final da Copa do Mundo. Argentina e Alemanha, que se enfrentam nas quartas de final, jogaram bem e mereceram a classificação, mesmo tendo uma senhora ajuda da arbitragem.

Alemanha x Inglaterra
Simplesmente um jogaço! O melhor jogo dessa Copa do Mundo: A Alemanha começou melhor, na verdade avassaladora. Abriu 2×0 logo de cara, primeiro com um belo lançamento do goleiro Neuer e a conclusão de Klose. O segundo em uma jogada rápida de seguidas tabelas, que deixou Podolski na cara do gol.

Até que o time inglês resolveu acordar, e diminuiu com Barry. No lance seguinte, o lance do jogo, Lampard chutou meio desequilibrado e encobriu o goleiro alemão. A bola bateu na trave ENTROU e voltou para as mão de Neuer. O fantasma de 1966 fez sua revanche: o juiz não deu o gol.

Com isso, o time inglês foi para o ataque e deu o contra-ataque para a Alemanha. Erro mortal. Com 2 gols de Muller, a Alemanha goleou.

Argentina x México
A Argentina é muito mais time do que o México, e o time da América Central historicamente perde para os Hermanos, mas foi o México quem começou melhor. Chegou por duas vezes com muito perigo, porém o mesmo problema da fase de grupos apareceu: A finalização. O time do México não chutava no gol.

E perder gols contra a Argentina é fatal. O time de Maradona é muito rápido, e em uma dessas investidas de Messi, Carlitos cabeceou em impedimento, quase 1m impedido, mas o juíz e o bandeira validaram o gol, mesmo vendo que tinham errado pelo telão.

Depois do gol, os Hermanos melhoraram e dominaram a partida. Higuaín fez o segundo com um presente de Osório. No segundo tempo Tevez fez um golaço de fora da área, batendo com raiva na Jabulani. O México bem que tentou, e até diminuiu, mas já era tarde. O time de Maradona passou para a próxima fase.

Visão Copeira
Foram dois jogaços, dois dos melhores jogos da Copa. A arbitragem ajudou e muito os times classificados, mas mesmo sem a ajuda eles iriam se classificar, com certeza. A Alemanha foi superior em 80 dos 90 minutos disputados e a Argentina é muito superior ao bom time mexicano.

Hoje é dia de Brasil!

Abraços.
Caio di Pacce.

Maradona: Uma benção para a Copa do Mundo – Coletivo Marte

Minha Coluna Copa em Marte no @coletivomarte:

Olá caros amigos e leitores do @coletivomarte!

Uma semana se passou desde que escrevi a primeira coluna Copa em Marte aqui, também faz quase uma semana do começo da Copa do Mundo. Fiquei pensando sobre o que escrever para vocês; poderia ser sobre a participação alegre dos Bafana-Bafana, ou a surpreendente goleada da tradicional Alemanha, quiçá sobre o placar magro e decepcionante do nosso escrete canarinho.

Mas não, eu queria comentar sobre o bem que Dom Diego Maradona faz à Copa do Mundo. Desde o dia 25 de Junho de 1994, na vitória celeste contra a Nigéria, com dois tentos de Caniggia, El Pibe não dá o ar de sua graça ao principal torneio de futebol do mundo.

Naquele jogo ele saiu do gramado com as mão dadas para a enfermeira do Estádio para fazer o exame anti-doping, que daria positivo para Cocaína e o excluiria do futebol por alguns anos. Maradona é mais do que um jogador para um povo argentino, é um messias, até religião ele tem.

E foi contra a mesma Nigéria que ele fez seu debute como treinador na África do Sul. Desta vez vestindo um terno, a pedidos de sua filha, todo elegante, mas com o característico relógio em cada mão. Fez suas superstições de fazer repetidamente o sinal da cruz. A Argentina ganhou de 1×0.

O segundo maior jogador de futebol do mundo, em minha opinião, só não perde para Pelé na mística. Ele emana um anti-heroísmo em suas ações. Se Mário de Andrade fosse criar um Macunaíma platino, com certeza se basearia nele.

Seu espírito anti-herói vem desde os tempos de jogador com seu gol com a mão de Deus, seu histórico ilícito extra-campo, suas declarações polêmicas, seus problemas financeiros etc. Sem contar seu lado político, mal visto por muitos do meio futebolístico, é aliado de Chavez, amigo particular de Fidel Castro, sempre deixando a mostra sua tatuagem de Che Guevara.

Na África do Sul ele está recheando e colorindo a Copa fora dos gramados. Nesta Copa que ainda não demonstrou tanto brilho ludopédico, ele vem dando show mesmo antes do começo das partidas.Primeiramente por prometer ficar nu caso ganhe a Copa, depois por ensinar a todos os “estrelinhas” da Copa como se domina a sobrenatural Jabulani, enquanto fumava um belo cubano.

Ver Dom Diego de volta aos gramados, mesmo torcendo contra a Argentina é bom demais! Ele traz mais brilho a esse mundo de futebol moderno, repleto de estrelas intocáveis e cifras astronômicas.

Abraços.
Caio di Pacce,
Do blog @copeiros – https://copeiros.wordpress.com

Belíssima ilustração de Rafael Nunes !(@RafahellNunes) Excelente ilustrador de Santo André.

Como em 1986

Sempre se fala que o futebol brasileiro é o mais alegre, mais carnavelsco e despojado do mundo. No entanto, o que estamos vendo nesse marasmo do pré-Copa não confirma o senso comum. Temos uma constelação de jogadores, preocupados com seus contratos, com sua imagem, com sua marca. As entrevistas são tucanas, sonsas e débeis. Se os jogadores falam mal de alguma coisa é de um objeto inanimado. Kaká rebate uma provocação argentina com uma típica resposta de gerente. Robinho só aparece em comerciais.

Enquanto isso, nossos vizinhos bi-campeões é que estão recheando e colorindo a Copa fora dos gramados. Primeiro, Maradona diz que vai subir pelado o Obelisco caso a Argentina vença o tri. Depois, ao fim de um treinamento, o escrete perdedor do rachão toma uma enxurrada de boladas nas costas do time vencedor. Em seguida, Carlos Bilardo oferece seu rabo para o marcador do gol do título.

Aí então ontem, o gênio portenho resolveu mostrar como se faz.

Na hora do treinamento de faltas, Maradona se juntou a Aguero, Milito e Palermo. De cinco tiros livres que bateu, acertou dois na caixa e um no travessão. Se fosse na Reba, o pibe já estaria com 20 pontos (5 de cada gol e 10 do travessão). Por isso, teve o melhor aproveitamento dos quatro.

Me pergunto o que o Dunga poderia mostrar “como se faz” para a constelação canarinha.

O anti-heroísmo romântico de Diego vai longe. Além de demonstrar extrema facilidade em colocar as bolas onde elas devem entrar, fez isso com um belo Cohiba entre os dedos, tragado em intervalos displicentes. A fumaça expirada carrega uma certa nostalgia. Não só dos hermanos, como de nós todos, que sabemos que não veremos um outro tipo como Dieguito por um bom tempo.

Enquanto isso, na Sala da Justiça, nossos guerreiros esbravejam que não foram para a África só de passagem. Estão todos duros, burocratizados. Incitam a batalha, a glória e o sacríficio.

Ah, que saudade do Vampeta!

Foto: AFP

A Copa de Diego.

Após sofrer as agruras de uma das ditaduras militares mais violentas na América do Sul, a entrada na segunda metade da década de 80 representava a aurora da democracia para a Argentina. Tal qual no Brasil a identificação e os reflexos da seleção argentina de futebol na sociedade sempre foram evidentes. Se 1978 representara a legitimidade máxima dos militares argentinos e do discurso de caráter autoritário e nacionalista (do mesmo modo que em 1970, no Brasil) com a conquista do mundial como donos de casa, a Copa do Mundo de 1982 se revelou um verdadeiro fracasso.

Marcada como a “tragédia de Sarriá” pelos brasileiros, a competição também não fora nada agradável para os hermanos que na estréia do já consagrado Maradona em Copas, viram o ídolo sofrer com a forte marcação e as expulsões em jogos decisivos. No mesmo ano, outro fracasso, dessa vez fora do campo marcaria a história do país para sempre. Numa atitude tresloucada do governo militar, a Argentina declarou guerra à Inglaterra, reivindicando a posse do território das Ilhas Malvinas (denominadas de Falkland pelos ingleses). O resultado, já esperado, foi a vitória acachapante dos europeus, levando os argentinos a abominar não só seu próprio regime governamental, responsável pela morte de cerca de 600 jovens, mas também os próprios ingleses, tidos a partir de então como inimigos declarados.   

Chegava 86 e, embora a busca por justiça e a consolidação progressiva da liberdade no país estivesse a pleno vapor, a herança econômica dos governos militares era um câncer inevitável. O clima de desconfiança fruto do ápice da “década perdida” rondavam o ar. Nem mesmo a convocação de Diego era uma certeza nacional. Setores da imprensa divergiam em relação a real capacidade do jogador ainda sem destaque na equipe do Nápoli. Mas um sentimento era compartilhado: era preciso reorganizar a Argentina e, sobretudo, reconquistar o orgulho ferido de um povo maltratado.

Após ser escolhida como sede, a Colômbia desistiu da competição devido a graves problemas econômicos. A escolha mais sensata acabou sendo o México, cuja estrutura de 1970 ainda era plenamente favorável à disputa do campeonato. A previsão era de uma acirrada disputa, fundamentada pelo contraste de gerações. A Itália era a atual campeã, a França veria sua última Copa com Michel Platini, a Alemanha vinha com uma eficiente equipe liderada por Lotthar Matthaus, e o Brasil, comandado por Telê Santana, trazia ao mundo o craque Zico, ao lado de Sócrates, Careca e Branco. A Argentina corria por fora.

E assim foi ao longo da 1ª fase. A equipe azul e branca venceu as fracas Coréia do Sul e Bulgária, e ficou apenas no empate com a Itália (que não apresentava nem sombra do futebol de quatro anos atrás, sendo eliminada pela França nas 8as).

A equipe argentina vinha com uma mistura interessante de jogadores experientes com novos talentos, a ponto de relegar o veterano Daniel Passarela à condição de reserva. Nas oitavas, venceriam o Uruguai por 1 a 0, naquela que Maradona considera a melhor partida de sua carreira. Para a maioria dos críticos e fãs, contudo, essa partida viria a seguir, quando nas quartas de final o adversário seria a Inglaterra.

Impossível não relacionar a partida ao conflito militar protagonizado pelos dois países e ainda muito vivo na mente dos argentinos, cujo orgulho mantinha-se ferido. A equipe inglesa vinha gabaritada por seu elenco experiente e talentoso, com nomes como Glenn Hoddle, Peter Beardsley e Gary Lineker (artilheiro da Copa de 86), mas uma campanha irregular na 1ª fase a deixavam sob o foco da dúvida.

O clima do jogo era inevitavelmente tenso- tanques de guerra mexicanos faziam a segurança do lado de fora do Estádio Azteca. E do mesmo modo iniciou a partida. Jogando com seu uniforme reserva a Argentina era protagonista das ações no inícios do jogo, embora a violência tomasse conta da partida em ambos os lados. O jogo truncado era reflexo do clima que o envolvia. Maradona era caçado em campo e o máximo que conseguia eram algumas arrancadas infrutíferas em direção ao gol inglês. O 1º tempo terminava sem gols.

A volta dos vestiários mostra uma Inglaterra mais disposta, com domínio de jogo e executando forte marcação. Mas apenas seis minutos depois, num dos lances mais antológicos da história do futebol, a Argentina sairia na frente: após a bola alçada na área, Maradona ergue a mão junto à cabeça, praticamente fazendo um gol com um soco. “La mano Del diós”, ou a mão de deus, da divindade chamada Maradona que transgredia ali todas as convenções do esporte, como se estivesse acima de tudo e de tudos. Ele podia.

Após protestos infrutíferos junto ao árbitro, os ingleses buscavam reagir, mas o pesadelo só aumentaria. Três minutos depois de abrir o marcador a Argentina ampliaria o placar naquele que é considerado o gol mais bonito de Maradona em sua carreira, e provavelmente um dos mais belos da história das Copas. O craque recebe um passe na intermediária, e no domínio já tira um inglês da jogada. Numa disparada violenta, deixa nada menos que três jogadores da equipe adversária para trás, e num retoque de perfeição, ainda tem tempo de driblar o goleiro Peter Shilton, para tocar no fundo das redes: 2 a 0. Um caminhão chamado Maradona passava por cima da experiente equipe inglesa, que estava completamente atordoada.

Com uma excelente vantagem os argentinos passaram a administrar o jogo, e valorizar o resultado conquistado. Apenas aos 35 do segundo tempo a Inglaterra conseguiria diminuir, com o artilheiro Garry Lineker, mas não seria suficiente. O apito final declarava e o inevitável sentimento de vingança, promovido por um meia marrento e sua camisa de número 10. A Argentina ainda enfrentaria a Bélgica e a Alemanha Ocidental, antes de se sagrar bi campeã do mundo em 86.