Como em 1986

Sempre se fala que o futebol brasileiro é o mais alegre, mais carnavelsco e despojado do mundo. No entanto, o que estamos vendo nesse marasmo do pré-Copa não confirma o senso comum. Temos uma constelação de jogadores, preocupados com seus contratos, com sua imagem, com sua marca. As entrevistas são tucanas, sonsas e débeis. Se os jogadores falam mal de alguma coisa é de um objeto inanimado. Kaká rebate uma provocação argentina com uma típica resposta de gerente. Robinho só aparece em comerciais.

Enquanto isso, nossos vizinhos bi-campeões é que estão recheando e colorindo a Copa fora dos gramados. Primeiro, Maradona diz que vai subir pelado o Obelisco caso a Argentina vença o tri. Depois, ao fim de um treinamento, o escrete perdedor do rachão toma uma enxurrada de boladas nas costas do time vencedor. Em seguida, Carlos Bilardo oferece seu rabo para o marcador do gol do título.

Aí então ontem, o gênio portenho resolveu mostrar como se faz.

Na hora do treinamento de faltas, Maradona se juntou a Aguero, Milito e Palermo. De cinco tiros livres que bateu, acertou dois na caixa e um no travessão. Se fosse na Reba, o pibe já estaria com 20 pontos (5 de cada gol e 10 do travessão). Por isso, teve o melhor aproveitamento dos quatro.

Me pergunto o que o Dunga poderia mostrar “como se faz” para a constelação canarinha.

O anti-heroísmo romântico de Diego vai longe. Além de demonstrar extrema facilidade em colocar as bolas onde elas devem entrar, fez isso com um belo Cohiba entre os dedos, tragado em intervalos displicentes. A fumaça expirada carrega uma certa nostalgia. Não só dos hermanos, como de nós todos, que sabemos que não veremos um outro tipo como Dieguito por um bom tempo.

Enquanto isso, na Sala da Justiça, nossos guerreiros esbravejam que não foram para a África só de passagem. Estão todos duros, burocratizados. Incitam a batalha, a glória e o sacríficio.

Ah, que saudade do Vampeta!

Foto: AFP

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Polêmico ou Bonzinho?

O futebol sempre foi coalhado por esses dois tipos de figura.

O tipo “polêmico” nem sempre é um grande jogador, mas gosta de falar muito e sempre é destaque na suas atividades extra-campo.

Já o “bonzinho” também nem sempre é craque, mas cumpre religiosamente o receituário de bom senso e profissionalismo que qualquer trabalho pede.

Pelo futebol ser mais Arte do que Ciência, o atleta polêmico desfruta de uma certa tolerância no meio. Devido ao Ibope e muitas vezes ao que faz em campo, diretoria e comissão técnica apaziguam os destemperos desse tipo de jogador.

Ontem Andrade, técnico do Mengo, disse que prefere os polêmicos aos bonzinhos – uma vez que mesmo Adriano e Bruno sendo polêmicos, foram decisivos na partida contra o Vasco.

Do lado dos bonzinhos, temos Kaká como expoente máximo. Muito se  falou desse brasiliense na semana passada, pois as câmeras o flagraram desferindo os mais incabíveis despautérios na desclassificação do Raul Madrid – desmitificando o Kaká que toda sogra quer ter como genro.

A verdade é que no futebol bonzinho não vinga. Temos o comentarista bem aprumado Caio, que apesar de ter jogado em grandes clubes, nunca se destacou. Nota-se a ausência de uma certa “maldade”, inerente a profissão de jogador. Como jogador, ele realmente deu um bom comentarista.

Mas a questão persiste.: deve se preterir o polêmico em detrimento do bonzinho, ou vice-versa? Dunga parece que quer tirar a prova dos nove com a Seleção, já que com ele o “polêmico” não tem vez.