Sobre Dunga, CBF e o mesmo cheiro

Com a saída do técnico Felipão após a desastrosa Copa do Mundo do Brasil, as atenções estão voltadas para quem será o responsável por encabeçar o projeto de devolver ao país o título de melhor futebol do mundo, embora os ufanistas de plantão ainda considerem este o país do futebol. O nome da vez, pasmem, segundo apurou a ESPN, é o de Dunga, aquele que treinou o escrete nacional na africana Copa de 2010.
A simples possibilidade de recontratar não o capitão do tetra, mas o técnico da Copa de 2010, escancara o que todo mundo sabe, mas ninguém dos que têm o poder (plim-plim!), admite publicamente: não existe um projeto minimamente sério pelos lados da Barra da Tijuca.
Seja quem for o escolhido, e pelos primeiros movimentos da cúpula da CBF (Marin-Del Nero), a tentativa de retomada do posto de número 1 dará com os burros n’água. O primeiro passo foi contratar Gilmar Rinaldi para ser o coordenador de seleções da entidade. Sabe-se que ele era, até poucos dias, agente de jogadores. Ora, não basta à mulher de César que seja honesta, tem que parecer sê-lo também.
Ainda assim, não será a escolha do coordenador ou do treinador, simplesmente, que mudará estestatus quo que teve como ápice as duas lavadas levadas pelo time do Scolari. O problema é outro, bem pior. Os time pequenos, fornecedores de craques para os grandes, estão falidos; o dinheiro, que é pouco ante o que se arrecada, é mal distribuído; os times grandes estão com a base entregue a empresários e agentes preocupados apenas em ganhar dinheiro.
Enquanto o 7 a 1 for tratado resultado de sete minutos de apagão, como tentaram apregoar Pareira e Scolari na cretina entrevista coletiva post mortem, duvido que alguém faça alguma coisa porque quem manda, e isso a gente vê por aqui, não vai parar de tratar o futebol como mero produto de grade de TV. Como o torcedor-telespectador é pouco exigente e, portanto, suscetível a opiniões dos Galvões Buenos e Tiagos Leiferts de plantão, ou de outros jornalistas catequizados sob o Evangelho Segundo os Marinho, acreditarão que o futebol daqui é bom e que ver o Olodum na Copa é divertido.
Voltando a Carlos Caetano, o Dunga, ele chegou à Seleção para ser um contraponto à esbórnia que foi vista na Alemanha, quatro anos antes, quando era Parreira o treinador. No entanto, o trabalho não foi bom, mesmo com os títulos das Copas América e das Confederações. Sob sua gestão, o Brasil jogava fechado e saía no contra-ataque, com a bola saindo diretamente dos pés acéfalos dos volantes para os laterais ou para a disparada do então serelepe Robinho. A Holanda acertou a marcação em apenas meio tempo e deu no que deu. Ou seja, a “renovação” não renovará nada. Vão apenas mudar a cobertura do bolo. O recheio será o mesmo. E não é bom.

Sobre trabalho e soberba

Quando o Brasil venceu com sobras a Copa das Confederações, vendeu a ideia de que o time estava pronto para a Copa. Afinal, venceu jogando bem e desbancou, com um indiscutível 3 a 0, a toda poderosa Espanha, àquela altura a mítica campeã mundial e bicampeã da Eurocopa.
Mas não estava. Não só do ponto de vista técnico, mas comportamental. Além de não ter apresentado nenhuma evolução técnica de tática desde então, o Brasil cometeu o maior dos pecados para quem tem uma competição como a Copa do Mundo pela frente, ainda mais em casa: acreditou que estava.
Felipão convocou um time absolutamente cru para o Mundial. Acreditou que Neymar e o Hino Nacional garantiriam a conquista do sexto título mundial. Desde que o time de apresentou com 18 dias apenas para se preparar para a Copa, uma esbórnia se instaurou na Granja Comary. em vez de treinar, o Brasil ficou fazendo sala para a Rede Globo, que fez o que quis em Teresópolis. Poucas foram as vezes que o time treinou de verdade.
Com o passar dos jogos, a evolução, que seria natural, não aconteceu. A Seleção não se encontrou como time em momento algum. Só que a comissão técnica e a dona da alma nacional venderam uma ideia diferente, de que o time já tinha decolado.
No jogo contra o Chile, o que se viu foi um time apavorado, desequilibrado psicologicamente, que já ficou no lucro por ter passado nos pênaltis. O jogo seguinte aconteceu seis dias depois. SEIS DIAS! E quantas vezes o time titular treinou? UMA só. O resto foi folga ou conversa.
Até funcionou, pois o time entrou com sangue nos olhos, embora o futebol em si tenha sido pobre. O time do Felipão apresentou muita luta, marcando alucinantemente a saída de bola colombiana e não deixando o ótimo time dirigido pelo argentino José Peckerman respirar. Quando o gás acabou, levou sufoco, mas passou. E todo mundo achou que, contra a Alemanha, era só repetir a fórmula, que a vaga na final estaria garantida.
É bobagem achar que a Seleção perdeu a segunda Copa em casa porque deu tudo errado na semifinal do Mineirão. Perdeu porque não trabalhou, porque não se preparou como deveria. Porque o experiente Felipão não deu suporte para que Neymar não fosse a única esperança da torcida. E perdeu porque acreditou que a camisa e a torcida que é brasileira-com-muito-orgulho-e-com-muito-amor seriam suficientes para ser campeão

Dizem que é só futebol

Passadas algumas boas horas após o fim do jogo entre Portugal e Estados Unidos, finalmente consigo escrever sobre a partida. A Copa do Mundo é um grande barato e é capaz de devolver, ao menos por um mês, o tesão por futebol que me foi tirado

O meu bate no ritmo de A Portuguesa, o Hino Nacional de Portugal. Sempre que toca, o sangue corre mais rápido e acontece uma espécie de transe do qual sinto orgulho de participar. É o ápice. É mais que futebol, repito. É o orgulho pela bandeira, pela origem, pelo sangue.

Depois eu percebi que, do contrário do que eu imaginei, Paulo Bento escalou André Almeida improvisado no lugar de Fabio Coentrão. “Um erro”, pensei cá comigo. “Deveria jogar o Miguel Veloso por ali e o William Carvalho no meio”. Quando a bola rolou, a Selecção das Quinas partiu como um rolo compressor para cima dos yankees e abriu o marcador logo aos cinco minutos, com Nani. Bem, minha voz acabou naquele instante.

Mesmo com a vantagem no marcador, o time das Quinas controlava completamente o jogo e dava a impressão de que, no mínimo, descontaria nos americanos a surra que apanhou dos alemães. Mas Jürgen Klinsmann percebeu a lacuna que existia entre o terrível Bruno Alves e o improvisado (e torto) André Almeida. E fez com que seu time atacasse sem parar por ali.

A essa altura, a empolgação inicial já havia virado apreensão. A cada passe errado do Bruno Alves; a cada bola mal dominada pelo Nani; a cada tropeço em si mesmo do medonho Éder. E a cada finalização perigosa deles.  E foram muitos lances assim.

Antes de acabar a primeira etapa, Portugal conseguiu impor-se novamente e poderia ter saído com a vantagem de duas bolas a zero para o intervalo se o chute de Nani não encontrasse o poste esquerdo e o rebote não caísse nos pés de Ederzito.

Veio o segundo tempo e Paulo Bento arrumou metade do problema quando sacou Almeida e voltou com o trinco William Carvalho, passando Miguel Veloso para a lateral. Mas continuou dando bola para os americanos concentrarem seu jogo por aquele setor. A solução, simples, seria abrir o melhor do mundo por ali e acabar com a festa, mas ele seguiu centralizado. Tudo bem que o próprio Cristiano teve a chance de matar o jogo em um contra-ataque mortal, mas foi afoito e resolveu chutar de qualquer jeito (ou sem qualquer jeito), para fora.

Aí veio o empate, na sobra de um canto mal rebatido. O resultado, a essa altura, já era péssimo, mas não punha termo às chances lusas. Só que os Estados Unidos, outra vez pela direita do ataque, viraram o jogo e instauraram o terror no time português.

Assim que eles passaram à frente, algumas pessoas levantaram-se e foram embora. Eu amaldiçoava, em sepulcral silêncio, cada uma delas. Não sei se por educação ou por falta de forças mesmo, o fato é que eu não falava uma só palavra.

Aí subiu a placa de acréscimos com um belíssimo cinco vermelho. Foi o suficiente para que minhas esperanças se renovassem. E o cruzamento perfeito de Cristiano Ronaldo. E a cabeçada fulminante de Varela. E o meu grito de gol. Enlouquecido. Explosivo. E a luz me faltou.

A pressão, que caiu, contrasta com a fé de que o impossível é palpável. Um milagre, somente um milagre, apura a Selecção de Portugal  para a sequência da prova. Mas acreditamos e é a nossa fé que nos mantêm vivos. Para quem ainda espera pelo retorno do rei Sebastião, isso não é nada.

 

 

Apaixonante e Injusto

O futebol é apaixonante. E injusto. O Irã fez um jogo perfeito contra a Argentina no Mineirão. Jogou marcando o tempo todo e explorou os contra-ataques com muito perigo, tanto que, até o minuto de número 90, o grande nome da partida era o goleiro Romero. Não foi porque Messi fez jus ao statusde lenda e garantiu a vitória e a classificação de los nuetros hermanos na única chance de gol que teve. Craques são assim.

Resultado à parte, chama a atenção como a Argentina não tem time, no sentido mais restrito do substantivo. Os laterais, Rojo e Zabaletta, são razoáveis e mais nada; Federico Fernandez não compromete e Garay teve uma temporada espetacular e é o melhor jogador da linha defensiva albiceleste, o que garante um miolo de zaga minimamente consistente.

Diz-se muito por aí que, do meio para a frente, a Argentina tem um time excelente. Não, não tem. Pode ter grandes jogadores, mas simplesmente não se encaixam como time. Alejandro Sabella armou a equipe com os badalados Messi, Di Maria, Higuaín e Aguero na frente. Seria um ataque poderoso, se não fosse por um detalhe: a bola não chega, e nenhum deles é armador.

Na cabeça de área, a Argentina tem os volantes Gago e Mascherano. Di Maria abre na esquerda e Messi joga mais próximo à área, onde ficam, se atrapalhando, os inoperantes (nesse sistema, diga-se) Aguero e Higuaín. Rojo seria o desafogo para ajudar o atacante do Real Madrid, mas ele, ofensivamente, é mais perigoso nas cobranças de escanteio, pelo alto, do que propriamente no apoio ao ataque pelo flanco esquerdo.

Sem pés pensantes para armar o jogo ou distribuir a bola, o time fica acéfalo e dependendo de uma eventual jogada individual, sobretudo do genial Messi, que, no Barcelona, é o jogador a ser acionado pelos meias do time. Na Argentina, porém, tem que bater escanteio e correr para o cabeceio.

Pelo Irã, Carlos Queiroz fez o que tinha que ser feito: encheu o time de jogadores da intermediária para traz e abusou dos contragolpes, principalmente com o rápido e perigoso Ashkan Dejagah, que joga no Fulham. Foi dessa forma, diminuindo os espaços e saindo com velocidade, teve as chances mais claras de gol.

Para o time da terra dos Aiatolás, o resultado é o que menos importa. Mesmo perdendo por 1 a 0, o Irã fez uma partida histórica e, para as suas pretensões, espetacular. Quanto à Argentina, fica o alerta: não se faz um time com nomes, mas com coesão e equilíbrio entre os setores.

¡Gracias, Fúria!

A desolação de um gigante

Chegou ao fim o domínio do futebol espanhol. Os ibéricos caíram frente ao bom time do Chile e, após ter estreado na Copa do Mundo apanhando da Holanda por 5 a 1, disseram adeus com uma rodada de antecedência e o jogo contra a Austrália não passará de mero compromisso protocolar.

A Copa das Confederações foi o último suspiro do mágico futebol praticado por La Fúria. No inédito bicampeonato europeu de seleções, o time de Vicente Del Bosque chegou trôpego àquela decisão, mas atropelou a Itália na decisão com um inquestionável 4 a 0.

Durante as Eliminatórias a classificação veio sem maiores problemas, embora sem muito brilho, em um grupo no qual tinha como principal adversário a inconstante França, e mais um monte de seleções inexpressivas.

O sonho de quebrar a escrita do bicampeonato mundial seguido (o último foi o Brasil, em 1958 e 1962) ruiu de forma inacreditável. Na estreia, contra os holandeses, o time espanhol fazia uma partida tranquila até levar o gol de empate. Depois que tomou o segundo tento, entrou em parafuso e, em momento algum, pareceu ter forças para empatar.

O jogo seguinte era contra o perigoso Chile de Jorge Sampaoli. Uma Espanha com mudanças, com Xavi e Piquet no banco, mas sem identidade, que não era nem sombra do time que mostrou ao mundo um jeito novo de jogar bola. Casillas e Xavi, dois dos maiores expoentes dessa geração, terminaram como símbolos do seu final. Enquanto o goleiro, que completava a marca de 17 partidas disputadas em Copas do Mundo, no seu terceiro mundial, e assim superava a marca do também mítico Andoni Zubizarreta, falhava clamorosamente no segundo gol chileno, o já lendário meia sequer saiu do banco de reservas.

Como eu escrevi neste mesmo blog após a já citada derrota da estreia, este time mítico não merecia um final tão triste. Em todo caso, em vez de aproveitar para tirar um sarro ou bancar o vidente o passado, considero mais digno agradecer pelos quase dez anos de um futebol mágico que poderei dizer aos meus netos que vi. ¡Gracias, Furia! 

Deitado em berço esplêndido

Durou dois jogos a aura de time pronto para disputar a Copa do Mundo que pairava sobre o Brasil. Se na estreia frente ao bom time da Croácia, sob as bênçãos da arbitragem, o resultado serviu para encher de brumas os defeitos apresentados pela equipe de Felipão, o jogo contra o também apenas bom México serviu para escancará-los.

Foram as mesmas falhas na marcação das duas laterais. O mesmo buraco na frente da área por causa da necessidade de cobrir as avenidas abertas com a descida de Marcelo e Daniel Alves. O mesmo sufoco em cima dos zagueiros. Se La Tri não criou chances claras, teve diversas possibilidades de finalizar de fora da área, sempre com perigo.

A campanha da Copa das Confederações serviu para dar moral a um time desacreditado, que se arrastou por dois anos nas mãos de Mano Menezes. Mesmo com Scolari, a Seleção demorou para ganhar corpo, o que aconteceu, de fato, durante o torneio teste para a Copa do Mundo. Naquele instante, vitórias incontestáveis contra Itália, Uruguai e o bicho-papão Espanha trouxeram para a Família Scolari o apoio que faltava, da mídia e da torcida.

O problema é que, desde então, a equipe não evoluiu. As duas laterais são convites para o adversário entrar em casa e tomar conta da sala. Isso sobrecarrega os volantes, que não conseguem dar a proteção necessária ao miolo de zaga. Se diante dos croatas David Luiz foi o destaque, contra os mexicanos o papel coube ao capitão Thiago Silva, que é um extra-série. Outra vez o destaque da equipa canarinha foi um zagueiro, o que é sintomático.

O Brasil não se impôs em momento algum do jogo. Pelo contrário. Marcando a saída de bola brasileira, o México, em alguns instantes, esteve melhor que o time de amarelo, como na sequência de chutes perigosos de longa distância. Claro que o Brasil foi mais perigoso, tanto que o goleiro Ochoa foi um dos destaques da partida, mas a diferença potencial das equipes não foi vista no relvado do Castelão.

O time é fraco? Não. Longe disso. Até outro dia, pouco se contestava a qualidade da equipe. Além do mais, a comissão técnica tem experiência na prova e traz no currículo os dois últimos títulos mundiais conquistados pelo país do futebol. O problema é que é mal preparado. Nunca-antes-na-história-deste-país, uma Seleção teve um tempo tão parco para se preparar para a disputa do mundial. Foram apenas 18 dias antes do debute.

O ambiente na Granja Comary, nestas pouco mais de duas semanas, é sabido por todos. Foi uma farra, quase igual àquela vivida em Weggis, antes da Copa de 2006, quando Parreira era o treinador, ou “gestor de talentos”, como ele mesmo proclamou-se. Foi um entra-e-sai de globais para ninguém botar (mais) defeito.

Ainda na semana que sucedeu a estreia, pouco foi trabalhado técnica e taticamente. E o resultado foi esse futebolzinho mequetrefe, pobre, pouco inspirado, apresentado em Fortaleza. Ainda faltam seis dias para o jogo contra Camarões, o que é tempo suficiente

O jornalista José Trajano, da ESPN, disse que era preocupante estar tudo certinho. É lugar comum, mas os campeões são forjados na dificuldade e a Copa das Confederações não é critério. É bom abrir o olho. O banco de suplentes não é rico em opções. Paulinho e Fred, outra vez, foram figuras nulas em campo e Neymar e Oscar não estiveram bem, diferentemente da estreia. o que potencializou os erros vistos no debute. Só o resultado não se repetiu. Nem o árbitro.

Ainda na semana que sucedeu a estreia, pouco foi trabalhado técnica e taticamente. E o resultado foi esse futebolzinho mequetrefe, pobre, pouco inspirado, apresentado em Fortaleza. Ainda faltam seis dias para o jogo contra Camarões e, para corrigir, ou pelos menos amenizar as carências da equipe, terão que trabalhar muito. Só que, dessa vez, de verdade.

De se assustar

PorXAle

Na abertura do Grupo G da Copa do Mundo, apenas a Alemanha estreou nesta tarde, em Salvador. Foi um massacre e, honestamente, 4 a 0 saiu barato, muito barato. Para Portugal faltou tudo: faltou bola, faltou reposição, faltou sorte, faltou condicionamento físico, faltou autocontrole ao zagueiro Pepe. E sobrou Alemanha. Sobrou Hummels, Boateng e Khedira. E transbordou Thomas Müller.

A expulsão do zagueiro Pepe desmoronou um time que encontraria, mesmo tendo 11 contra 11, o pior adversário possível para debutar na Copa. Cristiano, a meio pau, quase não apareceu. João Moutinho, o motor, o dínamo do time, sequer foi percebido, sequer tocou na bola. Inoperância do gancho luso? Não. Ele foi engolido pela meia-cancha alemã.

O gol logo aos 10 minutos facilitou as coisas para os germânicos, que, formando uma linha com quatro zagueiros na defesa, incluindo os laterais, obrigava Portugal a buscar jogo pelo meio. Com Miguel Veloso e Raul Meireles errando quase tudo, Moutinho, assim, não recebia a bola, e, quando era acionado, dois ou três alemães já estavam a desarmá-lo. Com a equipa muito espaçada, Ronaldo e Nani foram anulados com assustadora facilidade.

Aí veio o lance capital do jogo. Pepe deixou (deliberadamente ou não, não se sabe, mas deixou) a mão no rosto de Muller e depois, com o enorme camisa 13 caído, deu-lhe uma cabeçada bem leve, mas o suficiente para ver a cartolina encarnada. Aí a vaca deitou de vez.

Reduzido a dez homens, e com falhas individuais na defesa (leia-se Rui Patrício e Bruno Alves), Portugal foi presa fácil para os tricampeões do mundo, que só não dilataram mais o marcador porque tiraram o pé. Ainda assim, criaram hipóteses para aumentar o escore.

Como desgraça pouca é bobagem, Fábio Coentrão e Hugo Almeida saíram machucados e viraram dúvida até para o restante da Copa do Mundo, e Cristiano Ronaldo, pelo visto, ainda não está a cem por cento, embora as finalizações no fim do jogo mostram que o medo de uma nova lesão, ou o agravamento da outra, inexiste..

Faltam ainda duas partidas para a Selecção das Quinas, contra Estados Unidos e Gana, e o adversário mais forte do grupo já foi. O jogo contra os norte-americanos é daqui a seis dias, na sauna que atende pelo nome de Arena Amazônia, em Manaus. mas talvez não dê tempo para recuperar uma equipa destroçada física e moralmente.

Queda do Império

Nunca na história das Copas do Mundo um campeão levou uma cacetada tão grande na defesa do título como a que a Espanha levou hoje, da Holanda, na chuvosa Salvador. Desde que apanhou de seis do Brasil, no jogo que ficou marcado pela marchinha “Touradas em Madri”, de Braguinha, sendo entoada por mais de 150 mil vozes, a Fúria não tinha as redes balançadas tantas vezes em Mundiais.

A hecatombe que pode ter posto termo, definitivamente, à supremacia espanhola, que durava desde a Eurocopa de 2008, pode se vista por dois prismas opostos. Deu tudo certo para a Holanda e tudo errado para a Espanha? Talvez. Pode ser simplesmente o fim de um dos ciclos mais vitoriosos da história? Pode ser que sim.

Até a marcação do golaço de empate do Van Persie, a Espanha era dona absoluta da partida. Havia feito 1 a 0 no gol de pênalti (inexistente) marcado por Xabi Alonso e amassava os holandeses contra seu campo, embora não criasse tantas chances de gol, como é natural no estilo de jogo “são dois times e o que tem a bola é a Espanha”.

Pouco antes do empate, Iniesta deixou David Silva na cara do goleiro e com Diego Costa, livre, na frente do gol vazio. O médio resolver tentar encobrir o goleiro holandês, que, caindo, conseguiu se esticar todo e evitar a dilatação do placar.

O segundo tempo veio e a fúria holandesa apareceu. Tudo bem que houve falta em Casillas no terceiro gol, em lance mais claro que o também faltoso sobe Julio Cesar, no jogo de ontem, mas o fato é que a Espanha não existiu na segunda etapa. Com Robben endiabrado, 5 a 1 foi um placar modesto.

São raras as vezes em que uma geração acolhe tantos jogadores brilhantes no mesmo país. E ciclos chegam ao fim. Não é coincidência que times cujo jogo tenha como base a posse de bola quase doentia, tenham ruído como castelos de areia. A própria Espanha, na Copa das Confederações, o Barcelona de Guardiola diante do Bayern de Jupp Heynckes, e mesmo o Bayern, este ano, contra o Real Madrid. Em comum, como nesta tarde soteropolitana, os vencedores sufocaram a saída de bola e, quando a roubavam, chegavam em poucos passes na frente do gol. O terceiro gol da Holanda foi assim. Apertaram, tomaram a bola e precisaram que quatro passes para a bola chegar aos pés de Robben. Verticalmente.

Ainda faltam duas partidas e é pouco provável que Chile e Austrália tenham o poder de marcação daOranje. Seja como for, La Furia tem lugar reservado no panteão dos grandes esquadrões da história. Tomara que avance, pois um time tão vitorioso não merece um fim tão melancólico.

O Gigante Davi Luiz

No momento da execução do Hino Nacional, tive a sensação de que já sabia quem seria o melhor jogador em campo na estreia do Brasil na Copa do Mundo, contra o bom time da Croácia. A postura do zagueiro David Luiz antecipava alguém que jogaria pilhado, com sangue nos olhos.

Tudo bem que Neymar marcou duas vezes e Oscar teve participação decisiva em dois dos três gols (o outro deve ser creditado somente à nefasta atuação do árbitro japonês no lance do “pênalti” sobre o Fred) do Brasil, mas a vitória do escrete nacional, em grande parte, veio graças ao cabeludo zagueiro que nasceu em Diadema.
A Croácia era, de longe, o adversário mais complicado do Brasil nesta primeira fase. Por dois motivos: a estreia é sempre um jogo tenso, em que o fator emocional pode condicionar o rendimento na partida, e também porque o time croata é muito bom, mesmo desfalcado do principal atacante, Mandzukic, suspenso, e de outros cinco jogadores que não jogarão a Copa por estarem lesionados.
Mesmo com problemas, os enxadrezados dos Balcãs causaram diversos problemas ao Brasil, muito em função da fragilidade defensiva brasileira, embora dois dos principais zagueiros do mundo vistam amarelo. As laterais tupiniquins eram duas avenidas, dois convites ao time do técnico Niko Kovac. Marcelo e Daniel Alves não sabem marcar, o que, invariavelmente, sobrecarrega os volantes, quaisquer que sejam eles. Além de desgastar os trincos, que tinham que cobrir a deficiência defensiva dos laterais, acaba fazendo com que a bomba estoure em cima dos beques.
Sem contar que, dessa forma, o time fica descompactado, o que impede uma troca de passes rápida, que é uma das maneiras mais eficazes de furar defesas bem postadas como a dos croatas.
Está aí a dimensão da atuação do zagueiro que defenderá o PSG após a Copa. Numa partida vital como foi a realizada no Itaquerão, o enorme futebol apresentado por ele, se não contagiou os companheiros em campo, deu mais tranquilidade para que a bola não queimasse nos pés brasucas.
Acontece, pois, que nem sempre o camisa quatro terá tardes como a de hoje. E nem sempre a arbitragem irá completar quando faltar futebol, como hoje.

Com muito gosto

Não é de hoje que um sentimento anti-Seleção Brasileira cresce no país. Mesmo representando uma parcela diminuta da população, sobretudo formada por jovens que têm acesso ao futebol internacional e acabam se identificando mais com o futebol visto na ecrã de um computador ou pela TV a cabo do que aquele praticado a poucos metros do seu quintal, é um fenômeno que chama a atenção pelo fato de que, até bem pouco tempo, era impensável alguém que não torcesse pelo escrete nacional.

Vários motivos podem ser apontados: o “complexo de vira-latas” rodrigueano, de achar que tudo o que vem de fora é melhor, mesmo o Brasil sendo exportador do pé-de-obra usado lá fora para encantar o incauto tupiniquim insatisfeito; a ida cada vez mais precoce deste pé-de-obra, que pouco acrescenta na história dos clubes formadores e o consequente distanciamento da própria equipe nacional; o arroubo rebelde e questionador resultante dos protestos que começaram em 2013 e que fizeram com que nada prestasse no Brasil.

Acontece que a Copa não é, e nunca foi, a culpada pelos desmandos e barbaridades feitos no Brasil desde nossos antepassados portugueses cá aportaram (vocês também têm sangue português. Nem tentem negar isso). A Copa não traz estrutura. Em lugar nenhum isso aconteceu e não seria aqui que aconteceria. É compreensível que o desalento esteja à flor da pele, uma vez que há uma enorme carência no que diz respeito às necessidades básicas das pessoas, mas se o problema é o evento, depois de junho não haverá motivo para reclamar?

Mesmo assim, faço parte do ínfimo grupo que torcerá para que a Copa do Mundo fique com qualquer umas das outras 31 seleções que estão chegando. Particularmente, já não torço pela Seleção desde que entendi que ela é instrumento de manobra não de um governo (pura alienação, má vontade e pobreza nos argumentos de quem se diz anti-PT e nem sabe por que, achar que é), mas de um grupo que usurpou o futebol do Brasil e desde 1987 virou posseiro dele.

Assistir aos jogos do Brasil me causava o mesmo furor de uma partida entre Figueirense e Goiás, pela oitava rodada de qualquer campeonato modorrento de pontos corridos. Só que depois do que foi feito com a Portuguesa no ano passado, a indiferença se tornou aversão a tudo o que lembre ou tenha a chancela da CBF.

Eu poderia torcer pela Alemanha pela forma que eles tratam não só o futebol, mas de tudo. Ou pela Argentina, já que seria divertidíssimo ver a cara da pachecaiada se entreolhando enquanto Messi erguesse a taça. Ou por Portugal, por uma questão óbvia.

Mas não. Apenas torcerei contra. E com gosto, muito gosto.
Ps: é bom retornar!