Sangue, Suor e Lágrimas

Em 1966, o mundo estava dividido pela Guerra Fria. De um lado, os países alinhados com o paradigma de livre empresa e competição. Do outro, as nações encampadas pelo poder centralizado e economia planificada. Entre eles uma cortina de ferro.

Naquele ano, a Copa do Mundo se daria na terra da Rainha. O berço do futebol finalmente receberia a principal competição do esporte. Recuperado das mazelas da guerra, o continente Europeu borbulhava cultural e economicamente.

A Copa da Inglaterra contou com dezesseis equipes, sendo disputada em oito localidades. Uma delas era Middlesborough. Com pouco mais de cem mil habitantes, localizada ao nordeste do país, a cidade abrigaria os jogos do grupo 4 que contava com: Itália, União Soviética, Chile e Coréia do Norte.

O pequeno e misterioso país asiático chegou ao torneio de forma polêmica. A vaga foi conseguida em uma controversa disputa com a Austrália, após as confederações da África e da Ásia se degladiarem pelo número de vagas para cada continente. Assim, em 24 de Novembro de 1965, após ter ganhado em casa por 6 a 1, a Coréia do Norte passou facilmente pela Australia por 3 a 1.

Havia dez anos que a guerra que dividiu as Coréias terminara. Dessa forma, nos moldes da época, os países alinhados com Washington não mantinham relações diplomáticas com o chamado bloco vermelho. A Coréia do Norte chegou às terras inglesas sem ser reconhecida como país pela Rainha.

Por causa disso, nos jogos da Coréia em Middlesborough, não se ouviu o hino nacional norte-coreano. O correio britânico teve de retirar a bandeira do país asiático de seu selo comemorativo. Acordos políticos e restrições diplomáticas foram costurados para que os jogadores coreanos pudessem adentrar as fronteiras britânicas.

Em termos de futebol, os jornais ingleses da época eram irônicos. O Times os apelidou de “little orientals” e antes do ínicio da competição, foi taxativo: “A não ser que os coreanos sejam malabaristas, com alguma manobra inesperada, como correr com a bola amortecida na curva de seu pescoço, parece que a Itália e a Rússia devem dominar o grupo”.

O primeiro jogo da Coréia do Norte realmente pareceu carimbar o prognóstico: 3 a 0 para a URRS. Nada demais ocorreu no segundo jogo, quando o time arrancou um empate da regular seleção chilena. No entanto, a surpresa estava por vir.

A já bicampeã Itália vinha de uma vitória contra o Chile por 2 a 0 e uma derrota para os soviéticos por 1 a 0. Assim, o time do lendário Mazzola estava com o mesmo número de pontos que os norte-coreanos.

O jogo decidiria quem ficaria com a segunda vaga do grupo e avançaria para a segunda fase. Foi então que a História resolveu acontecer. Naquela tarde, o Ayresome Park contava com 19.000 espectadores. A Itália vinha com a vantagem de um empate  para um jogo fácil, mas aos 42 minutos do primeiro tempo, Park Doo Ik fez o gol mais importante de sua vida. Com um chute rasteiro no canto direito de Anzolin, fez a inglesa torcida vibrar e colocou a Coréia do Norte nas quartas-de-final.

Com a classificação, os norte-coreanos tiveram de mudar de cidade. Com eles, mais de 3.000 middlesboroughers foram junto. O jogo contra Portugal seria em Liverpool, que anos antes fornira o mundo com os aprumados Beatles.

E mais uma vez a História se fez. Aos 30 minutos de partida, o placar apontava 3 a 0 para os norte-coreanos. Inacreditável. Vislumbrante.

No entanto, a falta de experiência dos pequenos orientais fez com que o gênio de Eusébio crescesse. Portugal acabou vencendo de virada por 5 a 3. Nas semi-finais, perderam para os anfitriões, que mais tarde se sagrariam campeões daquela edição.

Mesmo assim, o estrago já estava feito. O futebol pedestre da Europa foi avassalado pela velocidade, espírito de equipe e bravura dos norte-coreanos. Alguns especialistas dizem que o desprendimento ofensivo da Coréia foi a base para a revolução holandesa de Cruyff e companhia nos anos 1970.

Os jogadores daquele time voltaram como heróis para a casa. Como de praxe para o país, receberam condecorações militares e são reverenciados por todas as gerações até hoje.

Nessa Copa da África, teremos mais uma vez os pequenos orientais no cenário. Como em 1966, está em um grupo que conta com duas seleções favoritas. Hoje o mundo está diferente e o futebol não tem mais as mesmas cores. Mas será que o espírito de luta norte-coreano continua o mesmo?

Espero que sim.

Fotos: fifa.com