Queda do Império

Nunca na história das Copas do Mundo um campeão levou uma cacetada tão grande na defesa do título como a que a Espanha levou hoje, da Holanda, na chuvosa Salvador. Desde que apanhou de seis do Brasil, no jogo que ficou marcado pela marchinha “Touradas em Madri”, de Braguinha, sendo entoada por mais de 150 mil vozes, a Fúria não tinha as redes balançadas tantas vezes em Mundiais.

A hecatombe que pode ter posto termo, definitivamente, à supremacia espanhola, que durava desde a Eurocopa de 2008, pode se vista por dois prismas opostos. Deu tudo certo para a Holanda e tudo errado para a Espanha? Talvez. Pode ser simplesmente o fim de um dos ciclos mais vitoriosos da história? Pode ser que sim.

Até a marcação do golaço de empate do Van Persie, a Espanha era dona absoluta da partida. Havia feito 1 a 0 no gol de pênalti (inexistente) marcado por Xabi Alonso e amassava os holandeses contra seu campo, embora não criasse tantas chances de gol, como é natural no estilo de jogo “são dois times e o que tem a bola é a Espanha”.

Pouco antes do empate, Iniesta deixou David Silva na cara do goleiro e com Diego Costa, livre, na frente do gol vazio. O médio resolver tentar encobrir o goleiro holandês, que, caindo, conseguiu se esticar todo e evitar a dilatação do placar.

O segundo tempo veio e a fúria holandesa apareceu. Tudo bem que houve falta em Casillas no terceiro gol, em lance mais claro que o também faltoso sobe Julio Cesar, no jogo de ontem, mas o fato é que a Espanha não existiu na segunda etapa. Com Robben endiabrado, 5 a 1 foi um placar modesto.

São raras as vezes em que uma geração acolhe tantos jogadores brilhantes no mesmo país. E ciclos chegam ao fim. Não é coincidência que times cujo jogo tenha como base a posse de bola quase doentia, tenham ruído como castelos de areia. A própria Espanha, na Copa das Confederações, o Barcelona de Guardiola diante do Bayern de Jupp Heynckes, e mesmo o Bayern, este ano, contra o Real Madrid. Em comum, como nesta tarde soteropolitana, os vencedores sufocaram a saída de bola e, quando a roubavam, chegavam em poucos passes na frente do gol. O terceiro gol da Holanda foi assim. Apertaram, tomaram a bola e precisaram que quatro passes para a bola chegar aos pés de Robben. Verticalmente.

Ainda faltam duas partidas e é pouco provável que Chile e Austrália tenham o poder de marcação daOranje. Seja como for, La Furia tem lugar reservado no panteão dos grandes esquadrões da história. Tomara que avance, pois um time tão vitorioso não merece um fim tão melancólico.

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O Gigante Davi Luiz

No momento da execução do Hino Nacional, tive a sensação de que já sabia quem seria o melhor jogador em campo na estreia do Brasil na Copa do Mundo, contra o bom time da Croácia. A postura do zagueiro David Luiz antecipava alguém que jogaria pilhado, com sangue nos olhos.

Tudo bem que Neymar marcou duas vezes e Oscar teve participação decisiva em dois dos três gols (o outro deve ser creditado somente à nefasta atuação do árbitro japonês no lance do “pênalti” sobre o Fred) do Brasil, mas a vitória do escrete nacional, em grande parte, veio graças ao cabeludo zagueiro que nasceu em Diadema.
A Croácia era, de longe, o adversário mais complicado do Brasil nesta primeira fase. Por dois motivos: a estreia é sempre um jogo tenso, em que o fator emocional pode condicionar o rendimento na partida, e também porque o time croata é muito bom, mesmo desfalcado do principal atacante, Mandzukic, suspenso, e de outros cinco jogadores que não jogarão a Copa por estarem lesionados.
Mesmo com problemas, os enxadrezados dos Balcãs causaram diversos problemas ao Brasil, muito em função da fragilidade defensiva brasileira, embora dois dos principais zagueiros do mundo vistam amarelo. As laterais tupiniquins eram duas avenidas, dois convites ao time do técnico Niko Kovac. Marcelo e Daniel Alves não sabem marcar, o que, invariavelmente, sobrecarrega os volantes, quaisquer que sejam eles. Além de desgastar os trincos, que tinham que cobrir a deficiência defensiva dos laterais, acaba fazendo com que a bomba estoure em cima dos beques.
Sem contar que, dessa forma, o time fica descompactado, o que impede uma troca de passes rápida, que é uma das maneiras mais eficazes de furar defesas bem postadas como a dos croatas.
Está aí a dimensão da atuação do zagueiro que defenderá o PSG após a Copa. Numa partida vital como foi a realizada no Itaquerão, o enorme futebol apresentado por ele, se não contagiou os companheiros em campo, deu mais tranquilidade para que a bola não queimasse nos pés brasucas.
Acontece, pois, que nem sempre o camisa quatro terá tardes como a de hoje. E nem sempre a arbitragem irá completar quando faltar futebol, como hoje.

Com muito gosto

Não é de hoje que um sentimento anti-Seleção Brasileira cresce no país. Mesmo representando uma parcela diminuta da população, sobretudo formada por jovens que têm acesso ao futebol internacional e acabam se identificando mais com o futebol visto na ecrã de um computador ou pela TV a cabo do que aquele praticado a poucos metros do seu quintal, é um fenômeno que chama a atenção pelo fato de que, até bem pouco tempo, era impensável alguém que não torcesse pelo escrete nacional.

Vários motivos podem ser apontados: o “complexo de vira-latas” rodrigueano, de achar que tudo o que vem de fora é melhor, mesmo o Brasil sendo exportador do pé-de-obra usado lá fora para encantar o incauto tupiniquim insatisfeito; a ida cada vez mais precoce deste pé-de-obra, que pouco acrescenta na história dos clubes formadores e o consequente distanciamento da própria equipe nacional; o arroubo rebelde e questionador resultante dos protestos que começaram em 2013 e que fizeram com que nada prestasse no Brasil.

Acontece que a Copa não é, e nunca foi, a culpada pelos desmandos e barbaridades feitos no Brasil desde nossos antepassados portugueses cá aportaram (vocês também têm sangue português. Nem tentem negar isso). A Copa não traz estrutura. Em lugar nenhum isso aconteceu e não seria aqui que aconteceria. É compreensível que o desalento esteja à flor da pele, uma vez que há uma enorme carência no que diz respeito às necessidades básicas das pessoas, mas se o problema é o evento, depois de junho não haverá motivo para reclamar?

Mesmo assim, faço parte do ínfimo grupo que torcerá para que a Copa do Mundo fique com qualquer umas das outras 31 seleções que estão chegando. Particularmente, já não torço pela Seleção desde que entendi que ela é instrumento de manobra não de um governo (pura alienação, má vontade e pobreza nos argumentos de quem se diz anti-PT e nem sabe por que, achar que é), mas de um grupo que usurpou o futebol do Brasil e desde 1987 virou posseiro dele.

Assistir aos jogos do Brasil me causava o mesmo furor de uma partida entre Figueirense e Goiás, pela oitava rodada de qualquer campeonato modorrento de pontos corridos. Só que depois do que foi feito com a Portuguesa no ano passado, a indiferença se tornou aversão a tudo o que lembre ou tenha a chancela da CBF.

Eu poderia torcer pela Alemanha pela forma que eles tratam não só o futebol, mas de tudo. Ou pela Argentina, já que seria divertidíssimo ver a cara da pachecaiada se entreolhando enquanto Messi erguesse a taça. Ou por Portugal, por uma questão óbvia.

Mas não. Apenas torcerei contra. E com gosto, muito gosto.
Ps: é bom retornar!

Touradas no Maraca

No dia 13 de julho de 1950, o Brasil goleou a Espanha por 6 a 1, pela Copa do Mundo de 1950. Naquela tarde, no Maracanã, 152.772 torcedores cantaram a música Touradas de Madri, de Braguinha, que era uma marchinha de Carnaval de muito sucesso naqueles dias. Mais de 60 anos depois, no mesmo Mário Filho, o Brasil toureou a mesma Espanha, que desta vez chegou ao país do futebol com a alcunha de maior seleção do mundo (e uma das maiores da história).

Para conseguir aplacar o poderoso adversário, a seleção de Scolari teve que ser humilde, renunciar ao seu futebol e jogar de acordo com as características da Fúria. A proposta era adiantar a marcação, pressionar de forma alucinante a saída de bola espanhola, agredir sem parar e recompor a marcação com rapidez quando perdesse a bola, evitando que ela chegasse limpa aos pés pensantes de Xavi e Iniesta, os já míticos responsáveis pela construção de jogadas do time do também lendário Del Bosque.

O volante Paulinho, de futebol vistoso e vertical, foi o volante-volante que Felipão tanto aprecia e se doou pelo time. Hulk, tão criticado pelo torcedor e principalmente por parte da imprensa, que clamava por Lucas, jogou em cima de Jordi Alba, anulando a principal jogada de desafogo da Espanha e, de quebra, ainda abriu campo para Daniel Alves fazer uma de suas melhores partidas pela Seleção. David Luiz, visto como um dos pontos fracos da equipe, fez uma partida perfeita, e só não foi o Man Of The Match porque Fred decidiu, como se espera de um nove, e Neymar mais uma vez foi soberbo.

Claro que seria humanamente impossível empreender este ritmo durante os 90 minutos, mas o gol de Fred, deitado, chorado, antes da segunda volta do ponteiro, facilitou todo o trabalho do time canarinho. A Espanha, nervosa como poucas vezes se viu, esbarrava na marcação e apelava para a ligação direta da defesa para o ataque, abrindo mão da articulação no meio, o que fez com que se tornasse, naqueles instantes, um time trivial, comum.

Quando conseguiu colocar a bola no chão, quase empatou com Pedro, que entrou livre e tocou na saída de Julio César, mas, quase sobre a linha do gol, um monumental David Luiz surgiu do nada e desfez o gol certo, que valeu como um gol. Ainda mais porque, logo na jogada seguinte, Neymar marcou o segundo, numa bordoada de canhota (seu pé menos bom), cruzada, sobre um atônito Casillas.

Assim que a bola rolou na segunda etapa, o filme se repetiu com o avançado Fred marcando o terceiro e fechando o caixão espanhol, também aos dois minutos. E poderia ter sido mais, se Marcelo, que fez uma Copa das Confederações impecável, tivesse visto Fred livre, na pequena área, esperando o passe que não veio. A partir dali, bastou inverter os papéis e tocar a bola sob o incessante “olé”, vindo das arquibancadas, que não cantaram o parara tchimbum das Touradas de Madri, como os mais de 150 mil de 1950, mas viram a camisa mais pesada do mundo jogar, se não sua melhor partida, um jogo para recolocar de vez o Brasil no caminho da reconquista do mundo.

O Palmeiras precisa de um Palmeiras

Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. O raio pode até ser que não, mas a dignidade do quase centenário Palmeiras cai diversas vezes.

Depois do enésimo vexame protagonizado pelo Palestra Itália, este numa fria noite outonal do interior paulista, ao ser cilindrado pelo Mirassol (!) por 6 a 2, e com todos os golos anotados somente na primeira parte, cabe uma reflexão.

Não adianta colocarem a culpa no técnico Gilson Kleina, que não tem jogadores condizentes com a grandeza do chamado Campeão do Século. Não resolve trazer outros jogadores no lugar deste amontoado de pernas de pau que vestem a camisa verde e branca. Colocar a culpa na direção do clube, que acabou de assumir para tentar ajeitar o monte de bobagens que a dupla Tirone-Frizzo fez? Nem pensar.

O problema é maior, é estrutural, é de base. O Palestra está infectado até o tutano. É comandado por um bando de retrógrados das famiglie que se aboletaram nas entranhas do clube e, como uma maldição, tem que conviver com o fantasma Mustafá Contursi arrastando suas correntes pelos porões palestrinos.

As arquibancadas estão infestadas por um bando de vagabundos que, travestidos de torcedores, afugentam não só o verdadeiro palmeirense, mas principalmente jogadores que, em condições normais, pediriam para defender o clube da Turiassu.

A goleada de hoje nada mais é do que o reflexo do pandemônio no qual se transformou a política palmeirense, ainda mais potencializado após a queda à Série B do Brasileirão. O Palmeiras não precisa de um time, um técnico novo ou seja lá a medida paliativa que for. O Palmeiras precisa de um Palmeiras.

Fechar os portões não basta

A bola da vez de dez em dez discussões sobre futebol nesta semana, e possivelmente nas próximas, é o lamentável incidente que aconteceu em Oruro, na estreia do Corinthians pela Taça Libertadores, contra o boliviano San Jose, quando um torcedor de 14 anos morreu ao ser atingido por um sinalizador que partiu da torcida corintiana.

A resposta da até então omissa Conmebol foi, através do recém-criado Comitê Disciplinar da entidade, punir o clube brasileiro vetando a entrada de seus torcedores em todos os jogos pela competição, seja em casa ou fora. Uma atitude polêmica, como tudo o que envolve o futebol.

Todas as conversas, desde as mais ponderadas até às mais acaloradas, têm como mote se a punição foi exagerada, pois todos os torcedores não poderiam pagar por uma dúzia de maus elementos que foram ao estádio. No entanto, um aspecto deve ser observado: o regulamento da Conmebol. De acordo com ele, o clube é responsável pelo comportamento de seus torcedores, seja ele o Corinthians, o San Jose ou o Coronel Bolognesi. Isso por si só já abaliza a medida tomada.

Mas não é suficiente. Basta ver o que aconteceu nos anos 1980, quando todos os clubes ingleses foram banidos por cinco anos das competições europeias por conta do ocorrido em Heysel, na Bélgica, durante a final da Copa dos Campeões da Europa, em 1985. Na ocasião, morreram 39 pessoas, na sua maioria torcedores da Juventus, pisoteadas pelos hooligans do Liverpool.

Mesmo com a punição, outros eventos semelhantes aconteceram, como na semifinal da Taça da Inglaterra de 1989, entre o mesmo Liverpool e o Nottingham Forrest, quando 95 scouses morreram e mais de 700 ficaram feridos, no estádio Hillsborough, em Sheffield. E foi aí que o governo interveio, com um documento que ficou conhecido como o Relatório Taylor, que, entre outras medidas, extinguiu o uso de alambrados nos estádios e propôs penas duras aos envolvidos em confusões, além da adequação das pocilgas, como a de Oruro, onde os jogos eram realizados.

Ou seja, de nada adianta a Conmebol punir agora se não houver um conjunto de medidas que envolva entes de todos os âmbitos, sobretudo governamental, com leis duras e eficazes. Se não for assim, a proibição não será mais que jogar para a torcida. No caso as outras, menos a do Corinthians.

Por um futebol mais justo

Depois que a Ponte Preta venceu o badalado Santos por 3 a 1 pelo Paulistão, o técnico do time de Campinas, Guto Ferreira, deu uma declaração interessante. Mais que isso, foi um desabafo pela condição do futebol do interior paulista.

”No começo, quando ninguém prestava atenção na gente nem via nossa dificuldade em contratar, treinar e arranjar dinheiro, éramos só mais um. Agora, depois de tirar leite de pedra, viramos favoritos. Se cairmos, seremos decepção. É sempre assim. Ninguém falará que ganhamos muito menos do que os grandes. Que não temos o apoio que eles têm. Estão ocupados demais para ver que o dinheiro não é distribuído como devia. Estou em um dos 20 clubes da primeira divisão. Mas somos tratados como um dos da última. Não sei se seremos campeões. E nem me importo. Mas o sonho do título e a esperança de que continuaremos incomodando e forçando os riquinhos a nos respeitar, isso TV ou dinheiro nenhum vai nos tirar. É o que mantém vivo o futebol brasileiro. Essa paixão e perseverança. Seria fácil para os 15 mil que vieram aqui hoje torcer pra um dos quatro. Mas não teria graça. É por eles que temos de ganhar. Não pra uma TV que nunca pensa na gente dizer que o título é caipira”.

Guto coloca o dedo na ferida, sem dó. Fala das distorções causadas pela péssima distribuição dos recursos da TV, que irá explorar ao máximo o fato de o lado preto-e-branco de Campinas liderar o campeonato, para depois jogar o bagaço fora. Também fala, indiretamente, da Federação Paulista de Futebol, que está instalada num suntuoso prédio do valorizado bairro da Barra Funda, na Zona Oeste da capital, enquanto seus filiados estão à míngua. É assim desde os tempos do presidente Farah, que sucateou o futebol do interior. O que Marco Polo Del Nero faz é continuar com o trabalho. Mais que isso: é aumentar o abismo entre os quatro queridinhos da mídia e o resto.

Mas que o dirigente não se iluda. Isso é como dar tiro no pé. É só ver pelo seu Palmeiras. Alguns dos grandes ídolos da gloriosa história palestrina foram buscados no interior. O Luis Pereira veio do São Bento; o Leão, do Comercial; o Dudu, da Ferroviária. Onde estão esses times? E onde está o próprio Palmeiras? Será que é saudável matar os estaduais em beneficio de meia dúzia de times com grandes torcidas?

Não se enganem! Se matarem os times pequenos, condenarão o Brasil a ser um país continental com quatro times grandes e um monte de zumbis servindo de sparrings.