Fechar os portões não basta

A bola da vez de dez em dez discussões sobre futebol nesta semana, e possivelmente nas próximas, é o lamentável incidente que aconteceu em Oruro, na estreia do Corinthians pela Taça Libertadores, contra o boliviano San Jose, quando um torcedor de 14 anos morreu ao ser atingido por um sinalizador que partiu da torcida corintiana.

A resposta da até então omissa Conmebol foi, através do recém-criado Comitê Disciplinar da entidade, punir o clube brasileiro vetando a entrada de seus torcedores em todos os jogos pela competição, seja em casa ou fora. Uma atitude polêmica, como tudo o que envolve o futebol.

Todas as conversas, desde as mais ponderadas até às mais acaloradas, têm como mote se a punição foi exagerada, pois todos os torcedores não poderiam pagar por uma dúzia de maus elementos que foram ao estádio. No entanto, um aspecto deve ser observado: o regulamento da Conmebol. De acordo com ele, o clube é responsável pelo comportamento de seus torcedores, seja ele o Corinthians, o San Jose ou o Coronel Bolognesi. Isso por si só já abaliza a medida tomada.

Mas não é suficiente. Basta ver o que aconteceu nos anos 1980, quando todos os clubes ingleses foram banidos por cinco anos das competições europeias por conta do ocorrido em Heysel, na Bélgica, durante a final da Copa dos Campeões da Europa, em 1985. Na ocasião, morreram 39 pessoas, na sua maioria torcedores da Juventus, pisoteadas pelos hooligans do Liverpool.

Mesmo com a punição, outros eventos semelhantes aconteceram, como na semifinal da Taça da Inglaterra de 1989, entre o mesmo Liverpool e o Nottingham Forrest, quando 95 scouses morreram e mais de 700 ficaram feridos, no estádio Hillsborough, em Sheffield. E foi aí que o governo interveio, com um documento que ficou conhecido como o Relatório Taylor, que, entre outras medidas, extinguiu o uso de alambrados nos estádios e propôs penas duras aos envolvidos em confusões, além da adequação das pocilgas, como a de Oruro, onde os jogos eram realizados.

Ou seja, de nada adianta a Conmebol punir agora se não houver um conjunto de medidas que envolva entes de todos os âmbitos, sobretudo governamental, com leis duras e eficazes. Se não for assim, a proibição não será mais que jogar para a torcida. No caso as outras, menos a do Corinthians.

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