O vizinho que me odeia

Por Juliano Barreto

Eu não sei se ela fez feitiço, macumba, ou coisa assim. Só sei que estou bem com ela, e isso é melhor para mim. Deixei de ser vagabundo, deixei de ser pé de cana. Aumentei minha fé em cristo e sou bem quisto por todo mundo. Quer dizer, todo mundo não, porque meu vizinho me odeia.

Nunca fiz nada para ele. Juro. Passei muito tempo pensando no passado e no presente dessa nossa relação. O cara ouve som alto todas as noites, minhas paredes tremem quando ele toca Roberto Carlos ou quando está vendo o Jornal Nacional. Na garagem, o carro dele sempre está com duas rodas dentro da minha vaga –se tivesse um jeito mais escroto de estacionar, ele estacionaria desse jeito ainda mais escroto. Preciso fazer um baita esforço para não bater no carro dele. O cara não faz esforço nenhum, tanto que percebi que meu carro está amassado de tanto ele bater a porta dele na minha lataria.

Mesmo assim, nunca reclamei dele para as autoridades responsáveis, o porteiro Sr. Antônio e a síndica, dona Maria de Lourdes . Achei que suportar essas pequenas grosserias criaria alguma cumplicidade entre nós. Não reclamando de tudo isso, ele também não reclamaria das vezes em que eu recebo meus amigos para assistir aos jogos do Corinthians ou dos jogos em que eu não recebo ninguém em casa, mas fico berrando a cada gol, falta, passe errado ou lateral mal cobrado. De fato, ele também nunca reclamou disso. Mas o cara me odeia.

Nas ocasiões em que nos vemos por acaso, ele faz questão de fazer uma expressão de nojo antes de virar a cara para o outro lado. Nunca o ouvi dizer bom dia, boa tarde, boa noite ou mesmo um simples opa. Não que eu não tenha tentado. Sempre cumprimento o gordão, e ele, no máximo, esboça um rosnado curto.

Cheguei a pensar que o cara era um rabugento, solitário, aquele tipo que não fala com ninguém. Mas percebi que praticamente em todo comecinho de noite, o vizinho está sentado largadão na mesa do boteco da esquina, dando risada e cercado de gente. Uma vez tinha até um violão na mesa e o cara estava batucando na mesa e cantando, vermelho de cachaça.

Só descobri a origem da raiva do fulano por causa de um time chamado Horizonte. A desconhecida agremiação do Ceará enfrentou o Palmeiras pela Copa do Brasil. E, ao que consta, o Palestra fez uma partida bem razoável, vencendo por 3×1. Não vi o jogo, não ouvi um rojão sequer, claro que teve gol de falta do Assunção, mas no outro dia, no caminho para a padaria…

Vejo o vizinho com uma camisa do Palmeiras! E nesse dia, ele olhou para mim com um ar de superioridade e rosnou um pouco mais manso. Vencer o Horizonte e desfilar orgulhoso pela rua Fernão Dias vestindo verde, coisa que há muito ele não fazia, começou a tirar o ranço do rosto do gordão. E me ver ali, desavisado, fez com que ele descontasse um pouco da raiva que sente por ter me ouvido gritar tantos gols e até alguns “é campeão” na orelha dele.

Bem que eu podia juntar todos os corinthianos que eu conheço lá em casa para assistir ao próximo Corinthians e Palmeiras. Fazer muito barulho, fazer as paredes dele tremer a cada gol e meter uma bandeira do Timão no meu carro, para irritar ele ainda mais na garagem. Mas falei para você que não sou mais disso. Não perco mais uma noite à toa. Não traio nem troco a minha patroa…

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2 Respostas

  1. Divertido o texto. Abraço

  2. Caramba, Juliano, gostei muito do texto, embora tenha havido uma leve cutucada ao meu Palmeiras!

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