100 anos, 3 tios

Texto escrito pelo Santista Leandro Leal

Eu, tio Gusto, Rogério e tio Luiz. Ficou faltando o tio Paulo.

Jogo da penúltima rodada da fase de classificação do Paulista, São Caetano x Santos não valia muita coisa. O alvinegro já estava garantido nas quartas. A irrelevância da partida era ressaltada pelos absurdos 60 reais do ingresso, fruto de uma iniciativa de lucro oportunista do time da casa, e pela promessa de chuva do céu, trajado de preto e branco como o visitante. Nem a anunciada escalação titular, com Neymar e Ganso, me faria trocar o sofá pelas enferrujadas arquibancadas do precário Anacleto Campanella, de visualização infinitamente inferior à proporcionada pelas várias câmeras da TV.

Minha cidade natal não fica tão longe da minha atual casa, é verdade, mas seria necessário um exército para me convencer a me abalar até lá. Ou quase isso, afinal, a numerosa tropa responsável pela minha ida ao estádio nada tinha de beligerante. Reunidos, tios, primos e agregados somavam 13 pessoas, e eram apenas um resumo da representação santista entre os meus. O belo gol de Neymar não foi suficiente para mascarar a surpreendente apatia da mesmíssima equipe que havia jogado muito contra o Internacional, em Porto Alegre. Acabamos perdendo de virada.

Nem esse resultado, nem o absurdo pago no ingresso, nem as toscas instalações do Anacleto, nem a chuva, que, felizmente, acabou sendo breve. Nada disso fez com que eu me arrependesse de ter ido. Freqüentadores de estádios nos anos 1960, 1970 e 1980, meus tios afastaram-se dos campos motivados pelas notícias de violência e, vai, pela preguiça que nos é comum. As oportunidades de me reunir nas arquibancadas com os três, grandes responsáveis por eu ser santista, são raríssimas. Que me lembre, antes disso, a última vez que assistimos a um jogo juntos havia sido em 1995, também no ABC, também com resultado decepcionante: um 2 a 2 contra o Juventus, no Bruno Daniel, em Santo André.

Em tempos de Neymar, difícil é convencer uma criança a não torcer pelo Santos. Como indica a predominância moicana, as cabeças da molecada já estão feitas. Mas, entre fins dos anos 1970 e princípios de 1980, período de baixa alvinegra, a lavagem cerebral requeria camisas, bolas e, claro, toalhas de banho. Abnegados, o tio Gusto, o tio Paulo e o tio Luiz lançaram-se na minha catequese. Aproveitando-se da pouca importância que meu pai dava ao futebol, repetiram comigo o método já posto em prática com o Rogério, meu irmão, e os primos mais velhos. (Desses, apenas o César não foi arrebanhado, convencido pelo pai palmeirense, que o batizara com o nome do atacante Maluco. Já com o Alan, o tio Alírio não teve a mesma sorte.) Mantiveram o processo a cada vez que a família aumentava, com os filhos e, depois, os netos. No geral, tiveram sucesso. Outras poucas exceções à parte, o crescimento da família santista correspondeu ao da nossa.

Se hoje eu, meu irmão e primos agradecemos aos tios pela doutrinação, ao longo da infância e adolescência o sentimento era outro. Passada a memória do titulo paulista de 1984, com a qual nos escudávamos da gozação, não havia como nos livrar da zombaria dos torcedores de outros times, na escola e, depois, no trabalho. Até o Palmeiras, de fila mais antiga que a nossa, voltou às conquistas no começo dos anos 1990, deixando-nos, santistas, como alvos únicos da galhofa adversária, da qual passaram a engrossar o coro. A arbitragem não quis, e Giovanni e seu duvidoso esquadrão – o mesmo que eu e meus tios vimos empatar com o Juventus da rua Javari – não evitaram a maioridade de nosso jejum, tampouco as conseqüentes piadas envolvendo títulos de eleitor e carteiras de motorista. Mas a ironia quis, e um moleque com a mesma idade de nossa escassez de títulos decretou o seu fim. Como o lateral corintiano Rogério, ninguém esquece das oito pedaladas do Robinho. Essas finais de 2002 eu presenciei in loco. Também estava lá na conquista de 2004, na de 2007, em um dos jogos da final Paulista de 2010 e na da Libertadores do ano passado.

Sou sócio do Santos e vou a quantos jogos puder, inclusive aqueles na Vila Belmiro, no meio da semana. Aos que me acusam de “neo santista” – gracinha recorrente entre rivais que, agora que ganhamos tudo, têm mesmo de arranjar novos temas para o humor – costumo dizer que, se estive ao lado do time nos piores momentos, não participar de sua boa fase agora seria o mesmo que largar a namorada gorda que emagreceu. Esta, aliás, é uma disputa recorrente nas filas de estádio, entre torcedores. Enumerando jogos traumáticos ou obscuros em que marcou presença, um quer provar ao outro que ele, sim, apoiou mais o time. (Mais ou menos o que, sem me dar conta, acabo de fazer.)

Os 100 anos do Santos encontram o time redimido com os títulos e a torcida. E meus tios, redimidos comigo. Afinal, se tenho o “orgulho que nem todos podem ter”, é graças aos irmãos da minha mãe. Parabéns, Santos. Parabéns, tio Gusto, tio Luiz e tio Paulo. E saibam: se eu tiver um ataque cardíaco a qualquer hora, a dona Mercês vai querer acertar as contas com vocês.

PS: Na contramão da influência, até meu pai, palmeirense pouco convicto, converteu-se. Usando um expediente semelhante ao dos tios, eu e o Rogério lhe pagamos sorvetes quando ele nos acompanha aos jogos

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