Segredos de um Corinthians x XV de Piracicaba

Texto de Juliano Barreto, do Resenha em 6, (http://www.resenhaem6.com.br/).

Rumo ao bem conhecido caminho do Pacaembu, coloco o primeiro pé para fora do trabalho e logo ouço os comentários de dois caras que esperavam por uma van. O primeiro diz que só alguém maluco poderia ir ao estádio naquela noite gelada de quarta-feira.  O segundo concorda, acrescentando que ninguém tem nada que ver em um jogo que não vale nada, jogado pelo time reserva do Corinthians contra a equipe que ocupa a última colocação no Campeonato Paulista. Para encerrar a parte da conversa que ouvi, veio a justificativa de que com um frio daqueles, o certo era ficar em casa e aproveitar as cobertas.

Como disse, estava indo para o Pacaembu e, por isso, não parei do lado dos caras para explicar para eles os motivos que fizeram exatos 7.531 corinthianos assistirem à vitória de 1×0 do time frente ao simpático time do interior. Se pudesse falar com esses caras, diria que é uma experiência deliciosa assistir a uma partida que não vale nada, com jogadores desconhecidos e num estádio quase vazio. Claro, é emocionante e único torcer em uma final de campeonato, quando cada minuto é decisivo e um gol ou um drible podem entrar para história. Ver um jogo que não vale nada, por outro lado, permite curtir cada pedacinho de jogada como algo único, feito quase exclusivamente para você e seus amigos. O jogo não vai fazer a história do Corinthians, do futebol Brasil ou do esporte mundial. Foda-se. Vai fazer a minha história.

E numa partida como essa, você consegue enxergar que mesmo os atletas do glorioso Esporte Clube XV de Novembro sabem tratar a bola muito bem, bem melhor que qualquer amigo seu que se acha craque. Os caras do XV também acertam dribles, passes longos, divididas, cabeçadas e lançamentos. O goleiro faz defesas difíceis e se joga na bola contra o pé do atacante como se fosse defender o filho recém-nascido de uma granada. A lição de ver isso ao vivo, num jogo com ares de pelada, é mostrar que o futebol é lindo mesmo (e, talvez, principalmente) sem os artifícios do marketing.

O mulato magrelo que vestia a camisa 11 do time do interior não faz comercial de TVs 3D, nem corta o cabelo de um jeito especificamente planejado para chamar atenção. Apostaria que se ele fizesse um gol, ele comemoraria dando pulos e socos no ar ao invés de fazer dancinhas ou procurar uma câmera para fazer gracinhas. Aquilo ali era futebol. Não esse nado sincronizado com bola que vemos nos campos verdinhos e reluzentes da Europa. Até que ponto o jogador é artista ou animal, não sei. Tenho certeza, porém, que prefiro o lampejo do instinto à eficiência do ensaio que resulta no quase-drible que vira simulação de falta.

Não dá para deixar de dizer também que era um jogo do Corinthians. E por isso eu estava lá, naquele puta frio, num horário que me cobraria caro na hora de acordar no dia seguinte. Só que não vou aqui usar aquela lógica surrada de que pelo time do coração a gente faz qualquer sacrifício. Não falo isso porque não foi sacrifício, não foi um favor que fiz ao Corinthians. Assistir a um jogo desses é como visitar seus avós. Eles vão contar as mesmas histórias, vão reclamar das mesmas coisas, vai ser tudo igual sem novidade nenhuma. Você não vai ganhar nada com essa visita, não vai aprender nada nem fazer média nem se divertir muito. Você apenas está passando alguns momentos com alguém que você gosta. E isso basta.

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