O que é o Barcelona?

Que o Barcelona é o melhor time do mundo, disparado, não é segredo para ninguém. As últimas dúvidas, se é que haviam, viraram pó no jogo, ou melhor, no passeio que o time blaugraná deu no Santos, o melhor time da América do Sul. O Santos simplesmente não viu a bola. E isso pode ser visto por dois prismas: o do Barcelona e o do Santos.
Para começar pelo time que estava em campo e não viu a bola, o Santos, a armação planejada pelo técnico Muricy Ramalho visava congestionar o meio, que é por onde o Barcelona costuma tocar a bola. Para tanto, escalou três zagueiros – Bruno Rodrigo, Edu Dracena e Durval – e dois volantes – Arouca e Henrique. Assim, além de obrigar o time catalão a abrir o jogo e buscar alçar a bola na área, onde os três beques eram mais altos que os meias barcelonistas, teria uma boa saída de bola com os dois volantes, que sabem sair para o jogo, e com os laterais Danilo e Léo. Afinal de contas, um time que joga com três zagueiros, além de proteger a própria baliza, automaticamente dá liberdade para os alas atacarem. Daí em diante, os três jogadores de frente – Neymar, Ganso e Borges – poderiam incomodar a zaga do Barça. Certo?
Seria, se não fosse por um detalhe: o Santos congestionou sua área, mas não marcou justamente onde o time brilhantemente conduzido pelo Pep Guardiola mais joga, que é na intermediária adversária. Pior que isso: todo o time recuou. Henrique virou zagueiro, Léo virou zagueiro, Danilo virou zagueiro. Arouca tentava, em vão, acompanhar quem estivesse com a bola, mas quem estava? Ora era Messi, ora era Cesc, ora era Xavi ou Iniesta, ou Abidal, ou Thiago Alcântara, ou Daniel Alves, que atuou de tudo, menos de lateral. Para piorar, Durval errou tudo o que podia e, principalmente, que não podia. Léo, que ganhou a posição quase no grito, parecia gritar por socorro o jogo todo.
Assim caiu por terra o primeiro mito, o do time bem protegido por ter cinco jogadores defensivos. O posicionamento dos brasileiros estava todo errado, e isso foi a senha, o convite para a própria morte.
Para piorar, Ganso se escondeu durante o jogo todo. Já Neymar, nas poucas vezes que teve a bola à sua feição, não foi feliz. No entanto não se absteve de correr. Borges, por sua vez, recebia tijolos que tinha que arredondar mas não havia com quem jogar, já que, isolado como estava, fazia o pivô, mas era para o meio de campo adversário.
Do lado do Barcelona, a filosofia de deter a posse de bola o maior tempo possível, que começou a ser implantada lá na década de 1970, com Cruyff, depois Van Gaal, depois Rijkaard e, por fim, Guardiola, que é cria de La Masia, a lendária cantera do Barcelona, chegou à beira da perfeição. Dos 14 jogadores que participaram do massacre de domingo, somente três não foram feitos em La Masia. Tudo com muita simplicidade, pois o princípio é o de que com a bola faz-se os gols e não os toma. Trivial, não?
Sim, mas o segredo é como manter a posse de bola, que, nos jogos do time azul-grená, ela tem ficado mais nos pés barcelonistas do que nos pés dos adversários há impensáveis três anos. Na meia cancha, o time de Guardiola reúne todos os seus jogadores que tenham a incumbência de criar. Todos sem posição fixa. Com exceção do volante-volante Busquets, os outros meias jogam de tudo, em todas. Como num passe de mágica, o time passa de um 2-1-5-2 para um 4-1-5-0 e daí para um 3-1-3-3. O “um”, é claro, é Busquets. No jogo de ontem, Abidal começou como ala e passou a ser zagueiro pela esquerda. Dani Alves era ora um meia aberto pela direita, fazendo o que Thiago Alcântara fazia pela esquerda, ora era um ponta dos mais agudos, tal e qual Pedro, do outro lado, assim que substituiu o ítalo-brasileiro-espanhol. Messi e Iniesta se deslocavam alucinantemente como rabos de vaca, da esquerda para a direita, e como pêndulos, indo e voltando. Cesc Fábregas e Xavi jogavam mais centralizados, o que não significa que estavam estáticos. Estava criado pandemônio na intermediária que deveria ser santista, mas era uma extensão do latifúndio que virou o campo do Barcelona.
Assim ruiu o segundo paradigma, este adorado pelo atrasados críticos do Novo Mundo: o de que é preciso ter atacantes de ofício para ser ofensivo.
Por fim, o que se viu no gramado do Yokohama Stadium foi um time focado no jogo e que conhecia cada passo de cada um dos 11 adversários contra um que teve seis meses para procurar entender o que era o adversário, mas que entrou em campo não para jogar, mas para prestar reverência e, sem referência, não passou de um time bonzinho, contra um time extraordinário, um dos maiores de todos os tempos.
Assim o terceiro ponto pacífico também virou fumaça, aquele que prega que deve-se comparar times diferentes, em momentos diferentes, para se justificar o favoritismo deste ou as chances daquele. Ora, falou-se muito da decisão de 2009, quando o “mesmo” Barcelona pagou todos os pecados para poder vencer o limitado Estudiantes, da Argentina, mas que tinha o semi-gênio Verón. O Barcelona tinha a mesma base, mas agora está dois anos mais curtido, e o Santos, em vez do mítico argentino, tinha um espectro de jogador dentro da também mítica camisa 10.
A última das ideias fixas que esvaiu-se no tapete verde de Yokohama é a mais cantada e decantada por aqui. O de que o Brasil é o país do futebol. Não, não é mais. Nós deitamos nas nossas glórias e não vimos que nos superaram. O país do futebol está na Península Ibérica, mais precisamente na Catalunha e, além de ter a mais bonita das histórias que um clube pode ter, tem o futebol mais mágico que já se viu desde a Copa de 1982, que, por ironia do destino, morreu no Sarriá, em Barcelona.
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