Lágrimas do meu pai

Meu pai nunca foi do tipo que gosta de futebol. Foi poucas vezes ao estádio e, quando o fez, nunca prestou atenção ao jogo. Torce para o Benfica mais por causa do encarnado da camisola que por influência da equipa que encantou o mundo nos anos 1960.

A incumbência de levar-me ao Canindé, tarefa considerada sagrada por este humilde escriba, coube ao meu tio Albano, não ao meu pai. Talvez quisesse me poupar de tantas desventuras, de tantos dias de expectativas frustadas e despaupérios proferidos em momentos de raiva. E olhem que foram muitos (os despaupérios e os momentos de raiva). O velho Constantino é do tipo que fica sabendo do jogo depois e só pergunta pelo resultado. Se a Lusa ganhou, “tá bom”. Se perdeu, “raios que partam o time!” ou “que não tivessem ido ao jogo, pá!”. E assim foi sempre foi desde que me conheço por gente.

Mas este ano algo estava diferente. De repente meu pai começou a perguntar se o jogo da Lusa era hoje, como estava o Benfica e se Portugal tinha se classificado para a Copa. Era comum, inclusive, vê-lo pelos passeios com a camisa rubro-verde. Até fez planos para irmos juntos à casa lusa para o jogo das faixas, contra o Duque de Caxias.

Mas aí a CBF antecipou a partida, atendendo uma solicitação da dona do futebol brasileiro, a Globo, e dando uma bica no Estatuto do Torcedor, e meu pai ficou sem ver a festa. Na verdade, ele soube do resultado, por mim, já no dia seguinte, e não escondeu a insatisfação, traduzida por um palavrão de origem portuguesa, é claro. Não direi o tal substantivo cabeludo, mas saibam os senhores que se trata do lugar mais alto do navio, para o qual eram mandados os marujos indisciplinados.

Quando, no começo da tarde, passou na TV a reportagem do jogo, fui ao quarto dele e mudei a TV de canal, que estava no Chaves, para que ele visse o Hino Nacional executado pelo maestro João Carlos Martins, os quatro golos da Portuguesa, os gritos de “É Campeão!” e a taça, a primeira nacional, erguida pelo outro maestro da noite, o capitão Marco Antonio.

No fim da reportagem, a surpresa: meu pai chorava, copiosamente, e cantava o hino da Portuguesa, mesmo sabendo apenas a melodia. Nesse momento, tudo valeu a pena: os momentos de raiva, os palavrões e, sobretudo, as lágrimas do meu pai.

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