O rabo que abana o cachorro

Todos nós sabemos, de longa data, que o futebol é paixão. A maioria de nós sabe, há algum tempo, que uma vez apaixonados, ficamos cegos. Alguns de nós sabemos, recentemente, que essa cegueira pode ser perigosa. Agora, nenhum de nós entende perfeitamente essa reação exagerada que a Copa está causando em alguns países.

Tudo bem, a Itália ter sido eliminada na primeira fase é feio. Merece as reações mais cegas e apaixonadas por parte dos italianos. É justificável. Assim como também é toda a frustração inglesa em ver seu bom escrete performar medíocremente no torneio. No entanto, para tudo tem um limite. Até para as paixões.

O exagero começa com a eliminação da França. O país está em uma convulsão social lenta e silenciosa. A questão migratória e o declínio do estado de bem estar tem gerado conflitos marcantes nesses últimos três anos. A União Européia enquanto mercado comum está pedindo socorro. Então, por quê o Henry teve de se explicar para o Sarkozy? Por que o Domensque se explicou perante a Assembléia Nacional Francesa?

Esse exagero não se basta no primeiro mundo. O presidente da Nigéria anunciou que “vai retirar a seleção de futebol do país de competições internacionais por dois anos, após o fraco desempenho da equipe na Copa do Mundo da África do Sul.” O governo também admite reavaliar o comitê que coordenou a campanha dos nigerianos no Mundial.

A Nigéria tem 70% da sua população abaixo da linha da pobreza, mesmo possuindo o trigésimo segundo maior PIB do mundo. Se você tivesse uma expectativa de vida de 50 anos, você estaria preocupado com a eliminação da seleção brasileira na Copa?

Aparentemente a resposta seria não. Todos nós temos o dedo em riste frente a tamanho ultraje. No entanto, olhemos para nosso próprio umbigo: quantas bandeiras brasileiras vemos estampadas com orgulho fora da época de Copa?

Se compararmos a situação, estamos mais preocupados com os problemas físicos do Elano do que com a eleição que se aproxima. Nos interessamos mais pela maleducação do Dunga, do que pela corrupção parlamentar.

O Futebol representa muitas nuances da vida. É o resumo da ópera econômica, social e cultural do globo. É como o rabo de um cachorro. Somente uma parte.

E quem abana o rabo é o cachorro. Não o contrário.

Foto: upstreamonline.com

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Uma resposta

  1. […] This post was mentioned on Twitter by Caio di Pacce. Caio di Pacce said: Texto incrível de @FlacoMarques sobre política, economia e Copa do Mundo: http://migre.me/UX2W O rabo que abana o cachorro. […]

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